Naquele dia 5 de julho de 1983, uma menininha nascia na cidade de Nova Iorque. A cidade ainda carregava o ar peculiar das festividades do Dia da Independência quando ela emitiu seu primeiro choro. Aquela pequena criança bastante branca possuía um par de olhos castanhos muito espertos e brilhantes, que pareciam compreender tudo o que se passava a seu redor, mesmo sendo ainda um bebê que mal acabara de chegar ao mundo. Seu olhar penetrante contrastava com sua frágil e pálida aparência. Como uma criança podia ter tamanha profundidade no olhar era algo chocante. A verdade é que Susan não era uma criança comum. Aqueles que não presenciaram seu primeiro choro – que soara mais como um pequeno berro de insatisfação – diriam que ela era incapaz de chorar. Um ar de profunda seriedade emanava de cada fio de cabelo de seu pequeno corpo. Seu pai, John Foster, dizia que ela nascera com um espírito velho. Sua mãe, que – era um fato – não a queria, via tudo como mais uma prova de que aquela criança não era normal.
Mary Foster havia sido uma criança rica e mimada em seu tempo. Contudo, sua família perdera tudo e, com isso, ela parecia ter perdido também parte de sua sanidade. Apesar de sua personalidade problemática, John se apaixonara por ela e eles se casaram, meses após se encontrarem pela primeira vez. Quando John a conheceu, Mary estava em uma fase em que se portava avessa a toda e qualquer religião, proferindo as maiores barbaridades e heresias que conseguia pescar das garrafas de bebida que começou a ingerir com notável voracidade, logo no primeiro ano de casamento, como se de uma das garrafas fosse brotar alguma solução para sua vida. A situação foi piorando até chegar a um ponto insuportável. Precisou ser internada, mesmo contra a sua vontade. Com a ajuda do marido e da clínica de reabilitação, conseguiu largar a bebida e entrou para uma igreja protestante. Tudo parecia ter melhorado e o marido começou a ver saída para um casamento que fora um fiasco desde o início. Com o tempo, Mary sentira vontade, pela primeira vez, de formar uma família. Mais do que vontade – um chamado, um dever como mulher cristã. Precisava de um filho e, então, engravidou. Mas o fato é que, quando descobriu que teria uma menina, o sentimento de Mary mudou. Dizia que havia algo errado, que aquela criança estava errada. Chorava e gritava todos os dias e foi preciso muita paciência para que John suportasse até o fim. Já não via aquela mulher como sua esposa. Não suportaria viver mais uma crise como aquela. Estava enlouquecendo, mas, de alguma forma, sentia-se preso a ela por algum laço incompreendível, algo como um senso de dever, que aos poucos cessara de fazer sentido. O fato é que ele já não era o marido dela de verdade: vivia mais como o pai de uma criança muito doente. E, em meio a tudo isso, nasceu Susan, a pequena criança de olhos perfurantes.
Continua...
domingo, 19 de fevereiro de 2012
quinta-feira, 15 de dezembro de 2011
Confissão
escrever é minha sina, meu vício, minha única saída. Enquanto resistir o último fio grisalho de sanidade, escreverei - para todos, para ninguém. A poesia não precisa de mim - ela se escreve sozinha, sob quaisquer mãos, tintas ou mesmo no menor grão de areia. Sou eu quem precisa da poesia, porque só ela me escreve, me bebe, me pinta. Sou poeta por necessidade e um incorrigível e louvável cinismo...
sábado, 27 de agosto de 2011
Ocular
Os olhos são tudo o que existe
Se movendo rápidos
Levando tudo consigo
O tempo lento
Arrastado
Contrasta com a velocidade do mundo
A rapidez dos olhos
Que são o tudo
Que são o quê
Mundo infindo
Retinas fatigadas
Os olhos são a máquina
Fotográfica
- a máquina registradora –
São o abraço
O gesto fugaz
O traço que nos marca
Os olhos são
Lugar-comum
A alma
E sua janela de onde acena encarcerada
E encena
O que se chama vida
Até que seja libertada
Pelo pó, pelo verme, pela traça
E os olhos dormem
E sonham
Com seu amor, seu vício
A sua sina eterna:
O olhar
Mas eis que distantes
distintos
como o céu e a terra
assim jazem
intangíveis
platonicamente
cada qual encerrado
em si
em seu plano
em seu canto
a se expiarem...
21/07/2009
http://www.recantodasletras.com.br/autores/rafaelsampaio
Se movendo rápidos
Levando tudo consigo
O tempo lento
Arrastado
Contrasta com a velocidade do mundo
A rapidez dos olhos
Que são o tudo
Que são o quê
Mundo infindo
Retinas fatigadas
Os olhos são a máquina
Fotográfica
- a máquina registradora –
São o abraço
O gesto fugaz
O traço que nos marca
Os olhos são
Lugar-comum
A alma
E sua janela de onde acena encarcerada
E encena
O que se chama vida
Até que seja libertada
Pelo pó, pelo verme, pela traça
E os olhos dormem
E sonham
Com seu amor, seu vício
A sua sina eterna:
O olhar
Mas eis que distantes
distintos
como o céu e a terra
assim jazem
intangíveis
platonicamente
cada qual encerrado
em si
em seu plano
em seu canto
a se expiarem...
21/07/2009
http://www.recantodasletras.com.br/autores/rafaelsampaio
domingo, 31 de julho de 2011
Hodierno
Rasguem a velha folha de papel amarelada
Bit me bit me bit me bit me
Novos deuses, novas musas
Bite me Bite me Bite me Bite me
Emergem
Beat (me) Beat (me) Beat (me) Beat
E te devoram... vivo ou morto!
0101100101010010101101010101001010010
Bit me bit me bit me bit me
Novos deuses, novas musas
Bite me Bite me Bite me Bite me
Emergem
Beat (me) Beat (me) Beat (me) Beat
E te devoram... vivo ou morto!
0101100101010010101101010101001010010
sexta-feira, 29 de julho de 2011
Interdito
Hoje não tem poesia - e que me desculpem aqueles que gostam. Hoje, fica uma reflexão sobre o quão curioso, estranho e, à falta de uma perspectiva adequada, até aparentemente cruel, é o destino, a vida, o cosmos. Pode ser o efeito do uísque, mas quão estranho e pequeno (mesmo com estes 1,87 e 90 Kg) eu me sinto diante de um universo tão inexplicável, inexprimível e indizível em sua simplicidade. A palavra que me vem à mente é: desconcertante. Talvez essa seja a graça, o grande plano, ou como quiserem chamar - nos desconcertar a cada dia. Olho pela minha janela e vejo uma única grande estrela brilhante no céu e penso: será realmente uma estrela, será um planeta, será um belo anjo a olhar por nós? Não, não é uma estrela comum. É um acalanto em uma noite fria - uma sensação de reconforto. Não posso deixar de pensar em como tudo e todos um dia fomos um só e que de estrelas todos somos feitos e, mais ainda - estrelas foram feitas para brilhar, como aquela estrela descomunal a me olhar pela janela...
terça-feira, 26 de julho de 2011
A volta do boêmio
Eu sei, tenho sido um pai ausente para este Blog e peço desculpas aos meus 1,25 leitores. Falta tempo, mas, acreditem, não falta paixão pela poesia e pela arte. Como forma de demonstrá-la, publico um poema que escrevi hoje mesmo, durante meu expediente de trabalho:
600 ml
A poesia é água
em tempos de coca
parece simples, chata
insípida, incolor e inodora,
mas é dela,
meus caros,
de que todos somos feitos...
600 ml
A poesia é água
em tempos de coca
parece simples, chata
insípida, incolor e inodora,
mas é dela,
meus caros,
de que todos somos feitos...
terça-feira, 21 de junho de 2011
Post para nunca ser lido
Poema para nunca ser lido
No que me transformaram?
Sou só um velho clichê aposentado
no fundo de uma gaveta
Um projeto abandonado de mim mesmo
O primeiro verso inacabado
de uma epopéia moderna
Sou os olhos e os ouvidos
das ruínas de um monumento grego
olvidado
um canivete suíço enferrujado
a possível evolução
de uma espécie há muito em extinção
sou só um velho poeta
interditado
resmungado pelas ruas brancas e nuas
de uma cidade imaginária
que previsível e pateticamente
resolvi chamar:
Parnaso...
No que me transformaram?
Sou só um velho clichê aposentado
no fundo de uma gaveta
Um projeto abandonado de mim mesmo
O primeiro verso inacabado
de uma epopéia moderna
Sou os olhos e os ouvidos
das ruínas de um monumento grego
olvidado
um canivete suíço enferrujado
a possível evolução
de uma espécie há muito em extinção
sou só um velho poeta
interditado
resmungado pelas ruas brancas e nuas
de uma cidade imaginária
que previsível e pateticamente
resolvi chamar:
Parnaso...
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